Se você já andou pelo sertão há umas décadas, talvez se lembre do jumento — aquele sujeito sisudo, de orelha longa e paciência de santo, que carregava água, gente, esperança e até fofoca de uma fazenda pra outra. Era ele quem fazia o Brasil andar antes do motor diesel chegar fazendo barulho e se achando importante. Pois é. E agora, adivinha? O jumento anda sumido.
Houve um tempo em que o jumento era mais que um animal: era companheiro de estrada, de plantio, de prosa e até de silêncio. No sertão, ele era o ritmo das coisas — um ritmo que sabia que chegar não é o mesmo que correr. Hoje, porém, o Brasil anda rápido demais, e nessa pressa quase não percebeu que o jumento está ficando raro.
Segundo o IBGE, nos anos 1990 existiam mais de 1,3 milhão de jumentos espalhados pelo país. Hoje restam algo em torno de 376 mil. Não é boato — é estatística. A mecanização substituiu o passo miúdo do animal por motos ronronando na poeira. A vida rural mudou, e o que era essencial virou lembrança.
Mas a história não para aí. Lá pela década passada, o jumento — que sempre foi discreto, trabalhador e nada afeito a autopromoção — descobriu que possuía algo valioso sem jamais ter pedido: sua pele. O The Donkey Sanctuary, uma organização internacional, mostrou que jumentos brasileiros estavam sendo abatidos para exportação, especialmente na Bahia, para produção de ejiao, um colágeno usado na medicina tradicional chinesa.
Foi aí que o jumento, que nunca quis entrar em economia internacional, virou estatística global.
A notícia caiu como um trovão em céu rachado: o animal que ajudou a construir o sertão poderia desaparecer por falta de utilidade ou por excesso de interesse. E então ONGs, vaqueiros, agricultores, pesquisadores e parlamentares começaram a dizer o óbvio:
o jumento não é peça descartável — é patrimônio cultural, afetivo e histórico.
Porque ele carregou água quando não havia cano.
Carregou criança quando não havia ônibus.
Carregou esperança quando a seca achou que ia vencer.
E agora, quem carrega o jumento?
Talvez o caminho seja dar a ele não um altar, mas um papel vivo:
- turismo rural com respeito,
- projetos de convivência com o semiárido,
- centros de preservação de raças,
- e, sobretudo, dignidade.
Porque, convenhamos, se teve alguém que entendeu o Brasil desde o começo, foi esse senhor de longas orelhas e coração paciente.
E talvez seja isso que nos falte hoje:
não mais velocidade.
Mas sabedoria.
Sabedoria com o ritmo do jumento.

