
Penetração não é tudo, pornografia não destrói relações e brinquedos sexuais não significam falha: veja o que a ciência e os terapeutas sexuais revelam sobre o que realmente importa na vida íntima.
Você ainda acredita que tamanho é documento ou que só os homens sofrem de ansiedade sexual? A ciência diz o contrário. Especialistas em sexualidade desmistificam 10 dos mitos mais comuns que cercam o prazer, o desejo e o desempenho, oferecendo uma visão mais saudável, diversa e inclusiva sobre o sexo.
De crenças sobre pornografia até a ideia de que o sexo acaba com a idade, muitos tabus continuam limitando o prazer e a liberdade sexual de milhares de pessoas. Neste especial, reunimos os principais mitos e as explicações dos profissionais que estão transformando a forma como encaramos a intimidade.
1. Sexo é só penetração? Nem de perto.
Durante séculos, fomos ensinados a entender o sexo como sinônimo de penetração vaginal ou anal. Mas essa definição é limitante — e injusta com a própria diversidade do prazer. “A relação sexual é vista como o ‘sexo real’, e todo o resto vira ‘preliminar’. Mas isso diminui as outras formas de prazer”, explica Kate Moyle, terapeuta psicossexual e autora de The Science of Sex.
Repensar o que é sexo pode abrir portas para experiências mais completas e livres de pressão. Troque a fórmula conhecida por pequenas mudanças: luzes acesas, roupas no corpo, ausência de penetração. A novidade, segundo Moyle, pode revitalizar a vida sexual.
2. Falta de ereção ou lubrificação = falta de desejo? Errado.
A ideia de que o corpo é um “detector de mentiras” sexual está ultrapassada. “Corpos não são máquinas”, diz a terapeuta sexual Dra. Emily Jamea. Fatores como estresse, traumas, medicamentos e insegurança interferem diretamente na excitação física.
Segundo o terapeuta James Earl, é possível se sentir excitado mesmo sem ereção ou lubrificação — e o contrário também. A recomendação é simples: não leve como rejeição. Vá devagar, observe e priorize a conexão emocional.
3. Pornografia destrói a intimidade? Depende.
Enquanto alguns especialistas apontam efeitos negativos da pornografia em excesso, outros destacam seu potencial de autoconhecimento e conexão. “A pornografia não é o vilão. Ela pode ser consumida de forma ética e prazerosa”, defende o terapeuta Silva Neves.
Para Alex Warden, terapeuta do Hospital Priory, o problema está na compulsão. Mas, mesmo nesses casos, ela costuma ser consequência de depressão ou ansiedade — não causa. A dica é conversar com o parceiro, sem vergonha, e alinhar valores e limites com maturidade.
4. Só homens têm ansiedade de desempenho? Longe disso.
Dados de estudos recentes mostram que 25% dos homens e 16% das mulheres sofrem com ansiedade sexual. Isso se manifesta em sintomas físicos e emocionais, como dificuldade de ereção ou orgasmo inibido.
“Fingir que está tudo bem só piora”, alerta Moyle. O segredo está na conversa aberta e na desconstrução de padrões rígidos. Troque a cobrança pela curiosidade. Mude de posição. Interrompa o que está desconfortável. O prazer começa pelo respeito mútuo.
5. Sexo bom é dom natural? É aprendizado.
Ninguém nasce um expert. A terapeuta Jamea é categórica: “Habilidades sexuais são aprendidas”. Comunicação, empatia e segurança emocional são as verdadeiras ferramentas do bom sexo. O melhor jeito de começar? Faça uma pergunta durante a transa: o que é melhor para você?.
6. Sexo acaba com a idade? Só se você quiser.
Mais da metade dos homens e um terço das mulheres acima dos 70 anos são sexualmente ativos, segundo a organização britânica Age UK. A autora Joan Price defende a “sexualidade sem idade” e diz que a chave é adaptação e criatividade.
Mãos, brinquedos e mudanças de ritmo ajudam a manter o prazer presente. “Explore outras formas, reveze o dar e o receber”, sugere Price.

7. Tamanho do pênis importa? Não para a maioria.
A pressão pelo “pênis ideal” gera ansiedade em muitos homens, mas 85% das mulheres heterossexuais dizem estar satisfeitas com o que seus parceiros têm. E o prazer, segundo especialistas, vai muito além da penetração.
Para a Dra. Shirin Lakhani, o diálogo sobre inseguranças pode fortalecer o vínculo sexual. Sexo oral, uso das mãos e técnicas de toque são alternativas tão eficazes — ou mais — do que o foco exclusivo no tamanho.

8. Brinquedos sexuais substituem o parceiro? Mito.
Brinquedos não competem com pessoas. Eles são ferramentas de prazer e descoberta. “Eles intensificam a excitação e ampliam a conexão entre os parceiros”, diz a psicoterapeuta Miranda Christophers.
Se você está começando, experimente um vibrador fora das zonas erógenas tradicionais. O objetivo é explorar o corpo, sem pressa, sem meta.
9. Sexo anal é só para homens gays? Preconceito.
A prática pode ser prazerosa para qualquer pessoa, independentemente da orientação sexual. “A ideia de que sexo anal é ‘coisa de gay’ vem da desinformação e da homofobia”, aponta Neves.
A estimulação da próstata, por exemplo, é extremamente prazerosa para muitos homens heterossexuais. Mas é preciso informação, lubrificação e cuidado — além de diálogo aberto com o parceiro.
10. Desejo sexual é fixo? Nem pensar.
Desejo não é um botão liga-desliga. Ele oscila conforme o momento, o humor, o contexto, os hormônios. “Em vez de perguntar ‘estou com vontade?’, pergunte ‘o que me faria querer?’”, sugere Jamea.
Encare o desejo como uma bússola emocional. Em vez de culpá-lo por não aparecer, tente entender as condições que favorecem seu surgimento.
O que aprendemos com esses mitos?
Sexualidade é mais do que um ato — é comunicação, curiosidade, liberdade e construção. Romper com os mitos permite um sexo mais verdadeiro, íntimo e prazeroso. E isso vale para todos: jovens, idosos, casados, solteiros, gays, héteros, com brinquedo ou sem.