8 de Março: da revolução russa aos números do feminicídio no Brasil e no ES — o retrato atual da luta das mulheres

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O frio cortava as ruas de Petrogrado em 1917 quando operárias têxteis decidiram que não aguentavam mais. Não era apenas fome — era a sensação de que suas vidas não valiam nada. Faltava pão nas mesas, direitos nas leis e paz nas ruas. Quando essas mulheres saíram em greve naquele 23 de fevereiro pelo calendário russo — 8 de março pelo ocidental — ninguém imaginou que o gesto delas derrubaria um czar. Mas derrubou. E abriu caminho para uma das maiores revoluções do século XX.

Mais de cem anos depois, aquele protesto de mulheres exaustas é reconhecido como o marco do Dia Internacional da Mulher, oficializado em 1975 pela ONU. O que começou como revolta operária virou símbolo mundial de uma luta que, convém dizer logo, ainda não terminou.

Em 2026, o 8 de março continua sendo uma data incômoda. Não porque seja exagero celebrá-la, mas porque os dados que ela revela tornam difícil qualquer celebração despreocupada.

O mundo em números

Desde que a ONU incorporou a data à sua agenda, a luta das mulheres ganhou arcabouço internacional. Surgiram tratados, convenções e metas — como a CEDAW e o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5, voltado à igualdade de gênero. Os avanços são reais: mulheres chegaram a universidades, parlamentos e cargos que antes lhes eram negados.

Mas os relatórios da ONU Mulheres revelam que o progresso ainda é lento demais para quem espera há tanto tempo. Mulheres recebem, em média, cerca de 20% menos que homens pelo mesmo trabalho. Ocupam apenas um quarto das cadeiras em parlamentos ao redor do mundo. E uma em cada três já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. Não são estatísticas abstratas — são mães, filhas, colegas de trabalho.

Brasil: as leis existem, as mortes também

O Brasil criou uma das legislações mais avançadas do mundo em proteção à mulher. A Lei Maria da Penha completou duas décadas como referência internacional. A tipificação do feminicídio, em 2015, foi um marco. O país, no papel, está comprometido.

Na prática, as mortes não pararam.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o Brasil ultrapassou 1.500 feminicídios em 2025. Mais de quatro mulheres assassinadas por dia, em sua maioria por parceiros ou ex-parceiros. Homens que deveriam ser companheiros, mas se tornaram algozes.

Especialistas são diretos ao apontar onde o sistema falha: falta educação sobre relações de gênero desde cedo, falta uma rede de proteção que alcance quem vive longe dos grandes centros, e ainda há muito a melhorar na forma como crimes de gênero são registrados e classificados. Além dos feminicídios, milhões de mulheres sofrem violência psicológica, física e sexual todos os anos — na maioria dos casos, dentro de suas próprias casas.

Espírito Santo: avanços reais, feridas abertas

O Espírito Santo fez progressos notáveis na redução de homicídios nas últimas décadas. Mas o feminicídio segue sendo uma ferida que não fecha. Em 2025, o estado registrou 34 casos — um número que, proporcionalmente à população, permanece acima de médias europeias e mantém a violência de gênero como um problema central na agenda de segurança pública capixaba.

Pesquisas locais mostram que quase um terço das mulheres do estado já vivenciou alguma forma de violência doméstica. O problema não está apenas nos crimes mais visíveis: está na reincidência das agressões, na dificuldade de fiscalizar medidas protetivas fora da Grande Vitória, na fragilidade de uma rede de apoio que ainda não chegou a todos os municípios.

O estado investiu em delegacias especializadas e programas de proteção. Mas quem trabalha na área é unânime: enquanto assistência social, segurança pública e Judiciário não agirem de forma integrada, as lacunas vão continuar colocando mulheres em risco.

O problema não respeita fronteiras

Nos Estados Unidos, o feminicídio não tem tipificação específica como no Brasil, mas os dados do CDC revelam que cerca de 55% das mulheres assassinadas morrem pelas mãos de parceiros íntimos ou familiares. O debate americano gira especialmente em torno do acesso a armas e da eficácia das ordens de restrição — que, com frequência, chegam tarde demais.

Na Europa, as taxas são menores que na América Latina, mas o problema existe. Uma mulher é morta a cada dois dias por um parceiro ou ex-parceiro dentro do bloco europeu. A Convenção de Istambul foi criada para mudar isso — mas enfrenta resistência política em alguns países que, a pretexto de preservar “valores tradicionais”, hesitam em adotar medidas efetivas.

Nenhum país está imune. O que varia é a intensidade do problema e a seriedade com que cada sociedade decide enfrentá-lo.

Mais do que um problema humano

A violência contra mulheres destrói vidas — e isso já seria razão suficiente para combatê-la com urgência. Mas ela também tem um custo que vai além do sofrimento individual. Sobrecarrega sistemas de saúde, reduz a produtividade econômica e, talvez o mais devastador, molda crianças que crescem em ambientes violentos e carregam esse trauma por gerações. Organismos como o Banco Mundial e o FMI já documentaram que sociedades mais igualitárias crescem mais e de forma mais sustentável. Não é ideologia — é dado.

O que precisa mudar

Especialistas que dedicam a vida a esse tema convergem em algumas frentes essenciais: educação sobre relações saudáveis desde a infância; monitoramento efetivo de agressores; ampliação das redes de acolhimento para além das capitais; mais transparência nos dados e combate à subnotificação; e, acima de tudo, uma mudança cultural profunda — que não virá por decreto, mas por escolhas cotidianas de uma sociedade inteira.

Punir é necessário. Mas punir sem prevenir é remediar um incêndio que nunca deixa de queimar.

O que o 8 de março ainda representa

Se em 1917 mulheres foram às ruas porque queriam pão e paz, em 2026 a luta envolve segurança física, igualdade salarial e o direito de ocupar os espaços de poder sem precisar pedir licença.

O 8 de março não é apenas uma celebração. É um inventário do que ainda falta. Ele lembra que as conquistas foram duramente conquistadas — e que podem ser revertidas quando a atenção baixa a guarda.

No Brasil e no Espírito Santo, a data chega como um chamado mais do que como uma festa. A história mostrou que as maiores transformações começam quando pessoas comuns decidem que não aguentam mais. A pergunta que atravessa o século segue sem resposta fácil: o quanto, de fato, ainda estamos dispostos a mudar para que igualdade deixe de ser promessa?